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Você também gosta de "fazer" filmes com uma idéia na cabeça e um teclado na mão? Então dê uma passadinha por aqui, vez por outra, que terá sempre novidades.

Boa Leitura! >>>>>>>>>>>>>>>>>>ANALUAR

"A LENDA DE KONG KIT, O Gangster de Macau"

Longa metragem escrito em Portugal um ano antes da devolução da administração do território de Macau à China, por Ana Lúcia Araújo e Abílio Mourão. Leia!

SINOPSE - para ler o roteiro completo peça-o via e-mail para:
analuar@bol.com.br

1941. A população de Macau quase triplicou nos últimos quatro anos, desde o início da guerra sino - japonesa, até atingir a soma de meio milhão de habitantes. Pressionadas pelos invasores japoneses, pessoas vindas de todos os pontos da China refugiam-se nessa terra portuguesa em busca de paz e sobrevivência, mesmo sabendo que Portugal pouco lhes pode oferecer.

     Juntam-se ao povo de Macau famílias inteiras, que perderam tudo o que tinham durante a guerra. Homens e mulheres que trouxeram o que restava dos seus haveres, famílias ainda abastadas, pedintes e vagabundos. No pórtico da igreja, sob as arcadas das ruas e em frente aos restaurantes, vivem e morrem, sem se queixarem da sorte, sem tomarem qualquer atitude violenta.

     O Governo de Macau transforma escolas, clubes e teatros em abrigos. Cria dormitórios, refeitórios, posto médico, hortas e criações de galinhas e porcos. Até o Canídromo, ponto de referência da cidade, é transformado em albergue para os refugiados. Professores, padres, freiras, médicos e enfermeiras de diversas nacionalidades e também a Polícia de Macau, ocupam-se das tarefas sociais. Entretanto, muita riqueza há ainda em Macau, concentrada em poucas mãos, a ver-se pelas montras de frente para a rua e pelos hotéis e restaurantes. O comércio do arroz mantém muitas fortunas.

     A concorrência entre famílias ricas e a miséria da população em volta é o ambiente propício para o aparecimento de bandidos, assassinos e chantagistas perigosos, que aos poucos vão envolvendo pessoas pacíficas e honestas. E o maior “gangster” que vive em Macau nesse período é Wong  Kong Kit, que juntamente com a sua mulher estabelecem uma lei paralela na cidade. Através de subornos contínuos, Kit assume o posto de coordenador da Comissão de Fiscalização do Arroz e passa a desafiar a Polícia Portuguesa, na pessoa do Comandante da Polícia, Capitão Roberto Ribeiro e Cunha.

    A luta entre Kong Kit e a Polícia Portuguesa geram episódios que vêm a perturbar a pacata cidade de Macau. Assassinatos, vinganças, ataques e perseguições, quer entre a polícia e o bando de Kit, como entre o Comandante Roberto e Kit, frente a frente. Kit porta-se à maneira de Al Capone em Chicago, circulando pelas ruas de Macau com seus automóveis em alta velocidade. Roberto acumula contra o “gangster” ódios que ultrapassam sua responsabilidade de polícia e atingem o nível pessoal. E toma para si a responsabilidade de apanhá-lo.

    A situação agrava-se com o início da Segunda Guerra Mundial e com a chegada  dos Japoneses às portas de Macau, que passa a ser o último entreposto ocidental da China. E não tarda a que os Japoneses comecem a interferir na vida administrativa da cidade através de mercenários e chantagistas, com o fim de extorquirem dinheiro a pessoas que deixaram familiares em territórios chineses ocupados, e,  de controlarem o comércio do arroz. Para proteger os seus interesses em Macau, o coronel japonês Sawa e seu ajudante Yamaguchi, instalados na porta do Cerco de Macau, aliam-se a Kong Kit, que passa a ser o Grande Chefe do Crime em Macau. Kong Kit e sua mulher agora controlam não só a vida dos chineses, mas também das pessoas que vêm de nações com as quais o Japão está em guerra. O Governo Português e o Governador de Macau preocupam-se com a insegurança e temem que os japoneses aproveitem-se da situação para também invadir Macau. Portugal quer se manter neutro no conflito mundial e está atento ao comportamento do Comandante Roberto em relação a Kong Kit e o seu protector Sawa.

     O Comandante Roberto Cunha, por sua vez indiferente ao conflito mundial, intensifica a caça a Kong Kit depois de este ter assassinado o comerciante português do arroz Fernando Rodrigues, em frente das suas filhas Noemi e Aline – com quem tinha a intenção de casar. A perseguição e as tentativas de apanhar Kong Kit, que se desenvolvem paralelamente aos crimes que acumula, ocorrem mais ou menos durante o tempo que durou a Segunda Guerra Mundial. Nesse ínterim, são assassinados também, em situação de diversificada importância, um dos irmãos Wong  (comerciantes de arroz), Pao Ka Kei   (guerrilheiro comunista que visitava Macau de vez em quando) e entre outros, Fukuy  (cônsul do Japão em Macau, diplomata e homem de bem), alguns dos quais mortos pela mulher de Kit, que manejava com perícia uma metralhadora, embora antes de se iniciar no crime fosse uma respeitada costureira.

     Com a notícia do fim da Segunda Guerra, o Comandante Roberto Cunha fica mais a vontade para preparar a armadilha final e tentar apanhar o seu inimigo número um. E para isso obtém o apoio de Hall Caine, major inglês do Intelligence Service em Hong Kong, que queria interrogar Kong Kit, considerado agora criminoso de guerra, abandonado que foi pelo Coronel Sawa após a derrota dos Japoneses na Segunda Guerra. Roberto alia-se ainda ao secretário de Kong Kit, uma espécie de agente duplo que há muito trabalhava para a Polícia Portuguesa e a Chang-Sang, general da guerrilha comunista chinesa, que também queria apanhar o “gangster” e apropriar-se dos seus bens.  O Comandante da Polícia Portuguesa em Macau, Capitão Roberto Ribeiro e Cunha prepara um plano, juntamente com o Comissário Bento de Moraes e o Tenente Augusto Ferreira.

     O plano para apanhar Kong Kit, que envolve o Intelligence Service, a Guerrilha Comunista e a Polícia Portuguesa, é perfeito. Após várias tentativas de evasão para as ilhas a Oeste de Macau, e várias batalhas, em meio a um baile, o “gangster ” é preso. Mas o Comandante Roberto acha por bem não entregá-lo aos tribunais da Segunda Guerra e fica com o prisioneiro para si, contrariando ao Intelligence Service e ao Governo de Portugal, surpreendendo a todos com a sua inusitada frieza. Em meio a um ambiente tenebroso, envolto em violência, poesia e mistério, Kong Kit é morto, para a alegria do povo de Macau.  Do mais famoso gangster daquela época, ficou um rascunho escrito na cadeia, contendo a história de sua vida e a partitura de uma música muito triste. 

***************************Abílio Mourão  e Ana Lúcia Araújo

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3
CRUZAMENTO

A seguir, você poderá ler, na íntegra, o roteiro de um curta metragem classificado em 20o. lugar no concurso 1998, de roteiros p/ curtas, do Ministério da Cultura português - mais de 300 participantes. E notará, certamente a diferença de "sotaque" na escrita em português luso, tanto dos diálogos quanto das indicações técnicas. A roteirista escreve também em português do Brasil e, futuramente, divulgarei outros trabalhos, já ambientados no Brasil.

GENÉRICO INICIAL

Estrada da Circunvalação. Hora do rush. Fila de carros no sentido Matosinhos-Porto. Um homem bem vestido, aparentando ser um executivo fala pelo telemóvel:

EXECUTIVO

-         Era bom! Ainda nem cheguei ao cruzamento do Amial.

VOZ FEMININA

-         Mas há meia hora já ias na rotunda? Paraste?

EXECUTIVO

-         Na puta da fila, mas podes ir indo que do Amial em diante é um tiro até a marisqueira.

VOZ FEMININA

-         Tchau então, beijinhos!

  (corte)

  cena 1

Close do Semáforo. Sinal verde. Buzinas.  

O carro do executivo está há cem metros do cruzamento, tentando avançar na fila lenta.

  EXECUTIVO (falando para si próprio)

-         Porra, se isto fecha ainda apanho os gajos a pedirem.

  (corte)

  cena 2

Close do Semáforo. Sinal Vermelho. Freios.

O Executivo pára o carro. Zé, um homem de aparência miserável, carregando uma criança escanchada ao quadril, enfia o braço para dentro do carro.

 

-         Tem um trocado, Dr.? É p’ra comprar o almoço à miúda.

EXECUTIVO

-         Almoço o que? Queres mas é p’ra dose de hoje, meu.

- Não, Sr. Dr., os miúdos tem fome, tenho ali a minha mulher com o bebé.

  O executivo hesita em acreditar no homem e em dar ou não umas moedas, mexe na mala do carro... diante do olhar ansioso de Zé.

  Inserte do semáforo. Sinal Amarelo.

  Reabre no carro arrancando, sem mostrar se o Executivo deu ou não a moeda ao Zé. A expressão do Zé, entretanto diz tudo, ao dirigir-se à mulher com o bebé ao colo. A mulher tem aparência suja, as roupas de inverno são surradas e descombinadas. A menina ao colo de Zé tem cara faminta e suja. O casal sobe o canteiro entre as duas pistas, a conversarem. Seição, a mulher do Zé, fala:

  SEIÇÃO

-         Nem um conto fiz até agora, carago.

-         Paciência, mulher, tivesse apanhado a besta do Dr.... Disse que eu queria dinheiro p’ra dose, o filho duma vaca. E ainda fingiu mexer na gaveta lá do carro.

  Zé passa a manga do casaco pela testa.. Seição arruma o bebé no colo e prepara-se para mais um “sinal vermelho”, distanciando-se do marido o equivalente a três carros. Mas ainda consegue dizer ao Zé:

  SEIÇÃO

-         Já temos p’ra sopa, que se lixe.

  O carros param mais uma vez e Seição inclina-se para uma senhora bem vestida ao volante de um carro de luxo:

  SEIÇÃO

-         Uma ajudinha p’ra sopa dos miúdos, minha senhora...

SENHORA BEM VESTIDA

- Nem se diz mais “se faz o favor”. Ora, tome isto...  ( A senhora dá umas moedas à pedinte)... antes que...

  A Senhora bem vestida arranca com o carro, antes que Seição tire o braço de dentro da boleia e esta é atirada contra o canteiro central da Circunvalação, devido ao choque no braço.

Agarra-se com o bebé tentando protegê-lo e cai com ele sobre o peito.

Zé deita a filha mais velha na relva do canteiro, vem ter com a mulher e ajuda-a a levantar.

O bebé dorme, imperturbável.

Zé mostra à mulher uma nota de mil e vai apanhar a filha deitada ao chão.

Os dois sorriem, enquanto se dirigem para uma tasca próxima do cruzamento.

  (fade out / fade in)

  cena 3

Na tasca, sentados à mesa, Seição tenta acordar o bebé enquanto abre o saco, tira um bibeirão e despeja nele um copo de leite. Enrosca a tampa com o bico e tenta pôr na boca do bebé. Ele não acorda, não há maneira.

Zé dá a sopa à menina sonolenta, alternando consigo próprio as colheradas.

Olhando para a mulher, que desiste de acordar o bebé e ousa o bibeirão sobre a mesa, pergunta:

 

-         Será que exageraste aí com o puto?

SEIÇÃO ( olhando na direcção de uma mesa, onde estão quatro “trolhas” a almoçarem)

-         Fala baixo, carago. Quer que os tipos ouçam?

  Na mesa, um dos homens palita os dentes, os outros já vão no cafezinho. Não se ouve o que dizem .

  ZÉ (voz em off)

-   Tu andas sempre com medo das catatuas das assistentes sociais. Vês uma em cada canto onde vamos.

SEIÇÃO ( voz em off)

-         Antão! E se as tipas descobrem, o subsídio vai p’ra o caralho e ainda perdemos os miúdos.

ZÉ (voz em off)

-    Ora, come mas é, que temos de voltar p’ro cruzamento logo.

  (corte)

  cena 4

Na mesa dos “trolhas”, o assunto é o referendo das regiões:

  HOMEM 1

-         Vais votar Sim ou Não?

HOMEM 2

-         Vou lá me dar ao trabalho de sair de casa, pegar mais uma bicha e ir votar! Era o que faltava!

HOMEM 1

-         E tu?

HOMEM 3

-         Eu voto sim. Se é para dividir melhor os tachos, quem sabe não dá um bom resultado?

  HOMEM 2

-         Sempre podes ir ter com aquele teu primo minhoto e pedir um lugar na Câmara, ah! ah! ah!

HOMEM 4

-         Eu voto Não. Se são eles lá de cima que propõem, eu digo sempre não. Tem que ser, eu estou do lado de cá e nem sabem que eu existo.

  (corte)

  cena 5

Na sua mesa, Zé e Seição, ouvem a conversa e o homem comenta:

 

-         Cambada de ignorantes. Bem merecem morrer a carregar tijolos!

SEIÇÃO

-         Porquê?

-         Nem um nem outro sabe bem porquê vota... ou porquê não vota. Aliás, nem sabe bem porquê que acordam de manhã.

SEIÇÃO

-         Como nós!?

-         Como nós, não. Nós não temos tido muita sorte na vida, mas eu tenho esperança de melhorar. Não sei se tu tens, mas eu tenho. Mas há pessoas que tem mesmo que morrer na merda. Burro é assim mesmo.

  (corte)

  cena 6

Bairro de Lata

Zé e Seição chegam em sua casa no bairro, cansados.

O bebé está acordado e feliz, sorri e brinca com a irmã.

A mãe se prepara para cozinhar o jantar.

O pai lava a cara e atira-se sobre um velho sofá.

  (corte)

  cena 7

Café próximo do cruzamento.

O Café acabou de abrir, a empregada ainda arruma as chávenas, quando o casal de pedintes Zé e Seição chegam com seus filhos ao colo ( ele com a filha de 3 anos e ela com o bebé) e dirigem-se ao balcão.

Lá fora está frio, pela maneira como esfregam as mãos e mexem com as pernas.

A empregada, como de costume, tira-lhes dois cafés e dá um croissant à menina. Depois pega num bule de leite e dá à Seição, que o despeja no bibeirão.

Zé dá à empregada uma moeda de cem escudos. Um cliente que espera por ser atendido, parece impaciente. Uma senhora, que também é uma das primeiras clientes da manhã, entra, trazendo pela coleira o seu cãozinho agasalhado, depara com o casal e resmunga:

  SENHORA  CLIENTE

-         Isto devia ser proibido. A gente sai de casa de manhã cedo e já depara com estes pedintes.

  O casal pega nos filhos e sai do café, sem nada dizer.

A empregada é quem responde à senhora.

  EMPREGADA DO CAFÉ

-         Se estivesse no lugar deles, não falava assim, D. Maria.

SENHORA CLIENTE

-         Isto é tudo uma cambada de drogados. Aqui perto de casa tem uma porção deles.

EMPREGADA DO CAFÉ ( de propósito para arreliar a senhora, vira-se e sorri para o cliente que toma o seu café):

-         Os drogados também precisam de comer, não precisam?

SENHORA CLIENTE

-         Tendo em conta o que custam ao governo, tinham mas era que morrer todos. Pena  que só alguns erram a dose.

EMPREGADA DO CAFÉ

-         Se calhar também os miúdos tinham que morrer. Os seus já estão criados, não?

SENHORA CLIENTE

-         Ora, você também tem filhos pequenos e não anda aí a pedir. Trabalha desde a madrugada a aturá-los.

EMPREGADA DO CAFÉ

-         A aturá-los e a aturar a todos. Qualquer dia, se me mandam embora, posso ir parar lá também no cruzamento a pedir uns trocados, se não me dão emprego. E aí a senhora diz mesmo de mim.

  (corte)

 cena 8

No cruzamento, o trânsito se movimenta no sentido da ida para o trabalho. Tanto no sentido Matosinhos - Porto, como ao contrário. Zé e Seição se dividem e vão, cada um para uma pista. E começam o seu peditório diário, mal o sinal fica vermelho.

 

(fade out / fade in)

  cena 9

Um carro para e uma mulher ao volante dá uma nota de mil escudos a Seição.

Depois de apanhar a nota, Seição percebe de quem se trata. É a assistente social da Paróquia.

  ASSISTENTE

-         Seição, Seição. Você acha correcto estar aqui a esta hora com as crianças, ao frio? E se ficam doentes, assim, sem se alimentarem direito?

SEIÇÃO

-         Oh! S’otora, se não vimos agora, não conseguimos nada mais tarde. Se não pedimos cedo, ninguém acredita que é p’ra comprar comida o dinheiro.

ASSISTENTE

-         Mas então, porquê não começam a ... trabalhar um pouquinho mais tarde e deixam os miúdos no infantário antes? As oito já tem gente lá? Olhe, diga ao Zé que vá ter comigo, que tenho um trabalho para ele.

  Zé vai chegando, com a filha a dormir ao colo e pergunta:

 

-         O que se passa, estás aí parada porquê?

SEIÇÃO

-         A S’otora qui diz que tem um trabalho pra ti, p’ra ires lá.

-         P’ra que? P’ra passada uma semana, me despedirem e eu encontrar isto aqui ocupado por outros. Veja lá, S’otora. Foi assim da outra vez.

ASSISTENTE

-         Mas os miúdos tem que ir p’ra o infantário, não podem ficar aqui. Definitivamente vos aviso. Isto não faz sentido.

-         Mas se não tivermos conosco os miúdos, vão pensar que somos drogados, como muita gente ainda diz que somos. Nós temos que dar de comer aos miúdos, mesmo a hora que chegarem do infantário.

ASSISTENTE

-         Quero que passem os dois comigo lá para falarmos, o mais rápido possível.

  Antes que os dois respondam, a Assistente Social arranca com o carro e deixa os dois a falarem sozinhos. Zé reage, dando uma banana à mulher:

 

-         Esta pensa que é da Polícia, a baca.

  (corte)

  cena 10

No autocarro cheio, a caminho de casa, a filha começa a acordar e o bebé chora, incomodando toda a gente.

Uma senhora dos seus 50 anos, começa a comentar com a outra mais ou menos da mesma idade – ambas com aspecto de empregada doméstica bem paga, sentadas no banco ao lado do casal de pedintes - sobre o berreiro do bebé e o mal estar que causa à volta.

Zé presta atenção na conversa, enquanto Seição tenta calar o bebé com um bibeirão.

  SENHORA 1

-         Mania tem esta ciganada de andar com estes miúdos pendurados, todos sujos, a cheirarem a merda.

SENHORA 2

-         Coitados, tem mais é que berrarem. Não sei como esta gente ainda tem ânimo para fazer filhos de noite, se nem vontade de cuidar têm.

SENHORA 1

-         Só p’ra andarem a incomodar os outros...

  Zé vira-se para as duas senhoras, revoltado, agressivo:

 

-         Minha senhora, a senhora sabe o que é um “portuguesinho”?

SENHORA 1

-         Como?!

ZÉ (insistindo)

-         As senhoras sabem o que é um “portuguesinho”?

  As duas senhoras arregalam os olhos, assustadas com o atrevimento de Zé. Ele não lhes dá tempo para reclamar:

 

-         Um “portuguesinho” é um Zé povinho de merda, que vem do emprego num autocarro cheio destes e ainda acha que está melhor na vida do que os outros.

SENHORA

-   Que grande lata falar deste jeito conosco.

SENHORA 2

-         Nós pelo menos trabalhamos, não andamos a pedir.

SEIÇÃO ( intervindo)

-         Isso mesmo, só porque anda a comer os restos da mesa das Kikis lá da Foz. E ainda põe o puto a estacionar carros p’ra ganhar algum.

ZÉ ( dirigindo-se às outras pessoas sentadas próximas dele)

-         Ela vive num bairro que só não é de lata, mas cai aos pedaços. E ainda paga para lá morar. Metida a boa a tipa. Oh, minha senhora, quer que lhe ensine como é que se fazem filhos lá no bairro de lata?

  Os passageiros riem às gargalhadas. As duas senhoras levantam-se e saem bufando.

  UM PASSAGEIRO

-         Vai, conta lá como é que é.

  (corte)

  cena 11

Em casa, no bairro de lata, Zé e Seição fazem amor vigorosamente, sobre um colchão velho, suspenso por tábuas. A filha mais velha dorme sossegada no sofá sujo encostado à parede, com a mesma roupa com que passara o dia. O bebé dorme sossegado.

  (fade out /fade in)

  cena 12

O acordar às cinco da manhã no barraco da família de pedintes. Seição passa água fria no rosto da filha, ainda sonolenta.

Zé serve um copo de leite frio e pinga lá dentro várias gotas de um conhecido sonífero.

A filha apanha o copo e bebe, num gesto costumeiro.

Seição abre o bibeirão e pinga cinco gotas do mesmo medicamento. Fecha-a e guarda na saca. Pega no bebé e veste um agasalho. Zé sugere:

 

-         Não dás leite ao miúdo, Seição?

SEIÇÃO

-         Oh! Zé, leite frio p’a o bebé? Depois, ele dorme antes de chegarmos ao café e as tantas acorda. É melhor dar lá mesmo. Ele mamou, de manhã ainda sai leite (diz Seição apalpando o peito )

-         Então vamos logo antes que a miúda apague. Precisa comer o pão antes de... Vamos, Seição?

SEIÇÃO (sorrindo maliciosamente)

-         Espera, Zé. Pega aqui no miúdo p’ra eu arranjar os cabelos. Não sou tu que sai de qualquer jeito. Até pareces um mendigo, mesmo. Não foste tu que falaste em esperança, em sair lá da merda do cruzamento um dia, carago?

-         Eeeeh! Mulher a gente fala uma coisa e elas logo... eeeh!

  cena 13

  Cruzamento. O casal desempenha para os condutores que passam o seu papel, para cada perfil de condutor, uma fisionomia diferente, uma frase num determinado tom de voz.

  ZÉ / SEIÇÃO

-         Uma ajuda p’ra sopa da miúda...

-         Uma ajuda para comprar qualquer coisa  p’ra comer...

-         Uma coisinha pra ajudar o bebé.

-         Uma ajuda p’ra os miúdos...

(fade out /fade in)

  cena 14

No cruzamento. O casal continua o seu peditório. Um carro com letreiro do Serviço Social pára junto deles. Ao lado da condutora, a assistente social, está um oficial de Justiça.

  ASSISTENTE SOCIAL

-         Dona Conceição, isto é para a senhora.

SEIÇÃO

-         O que é isto?

ASSISTENTE SOCIAL

-         Foi feita uma denúncia por causa da maneira como trazem as crianças e o tribunal vai apurar se é verdade.

SEIÇÃO

-         Como?

  O carro do Serviço Social arranca ao mesmo tempo em que Zé chega, vindo da outra pista. Ele apanha o papel da mão da mulher e lê.

  (encadeado)

  cena 15

No Cruzamento. Zé e Seição sozinhos, sem as crianças, a pedirem dinheiro aos condutores, como de costume. O Executivo da Cena 1 pára o carro.

  EXECUTIVO

-         Estes gajos de novo!

  Zé finge que não ouve e apanha as moedas que este lhe estende.

Seição avista o carro da Assistente Social e fica desfigurada. Dá uma cotovelada em Zé e este corre para frente do carro da Assistente.

Seição chega à janela pelo lado do condutor e dá um safanão bem dado na Assistente. Esta solta um grito abafado, mas ninguém percebe. Zé aponta-lhe o dedo ao rosto, quase encostando-o ao nariz da mulher.

 

-         A Senhora nos tirou os miúdos, mas nós vamos fazer outros,  sua puta. Pode contar que vamos.

  (corte)

  cena 16

Um carro velho, aberto nas traseiras, parado a entrada do bairro de latas. Zé e Seição vendem frutas de um caixote, peixes e produtos de limpeza.

Numa cesta colocada no banco da frente, dois bebés gémeos rechonchudos.

  SEIÇÂO

-         Que hora é que vamos buscar os miúdos?

ZÉ (emocionado)

-         As quatro. Desta vez não vão mais embora, eu garanto.

SEIÇÃO (insegura)

-         Jura, Zé!

-         Juro, mulher. Nós agora não pedimos mais nada às pessoas, damos – Zé gesticulando – marretadas nelas. Agora temos direito a ter os nossos filhos em casa.

SEIÇÃO (sorrindo)

-   É, Deus escreve certo por linhas tortas, mas nós também, porra.

  FIM